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 Fogo de Conselho

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CDX
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MensagemAssunto: Fogo de Conselho   12/06/09, 01:41 am

Este tópico vai funcionar como uma reunião. Mais precisamente, um conselho. Inicialmente, eu vou contar uma história, e vocês vão ouvir. O que vem depois, vem depois. Aviso já que vai ser semelhante pacas à atividade mais legal dum acampamento chamado NR (vide assinatura), então se você tem planos de ir lá, pare agora, pois o melhor momento da viagem vai ser estragado se tu continuar aqui no tópico.

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Bom, a escolha é sua de resolver continuar. Basicamente, o conselho tem 3 regras.

A primeira é simples e clara: isso aqui não é obrigatório. A história, que eu vou botar em caixa de quote, vai ser bastante grande, e o ideal é ela ser lida toda de uma vez. Quem quiser participar do tópico, participa, vou ter o maior prazer de te ter aqui. Quem não quiser, beleza pura também. Sei que tô parecendo aqueles professores "quem não quiser assistir à minha aula, pode sair" mas gente, o bagulho aqui é sério. Estou pedindo na moral. Se você não quiser participar, não tiver saco pra ler isso tudo ou sei lá, e resolver sair, então tu tá em alta no meu conceito, muito mais do que alguém que tiver ficado aqui sem se comprometer a seguir as regras.

Segundo, só participa do tópico quem ler a história. Ou seja, termine de ler as regras, dê uma olhada geral no tamanho da história e depois decida se está dentro ou fora. Quem resolver ficar fora, eu já disse que é super de boa, apenas não saia respondendo ou lendo as respostas do tópico. Primeiro porque elas vão te deixar curioso, mas aí a grande graça da história já foi pro buraco - parece contradição, eu sei, mas não é. E segundo porque isso foderia com o esquema do conselho, e é de suma importância que esse esquema seja seguido. Nada te impede, porém, de simplesmente deixar pra participar do tópico outro dia. Não vai atrapalhar em nada, nem a você nem à reunião, se tu entrar nela na hora que quiser, daqui a sei lá quanto tempo.

A última tecnicamente não é uma regra, pois não pode ser imposta: respeito. Mesmo não podendo ser imposta, essa é a regra mais importante daqui. Não é um "Que cara chato que não me deixa sair respondendo no tópico dele". Isso não é respeito, isso é obediência. E quem obedece é computador, que tu manda ele abrir um arquivo, e ele abre e pronto. O que eu quero é respeito de verdade. A história que eu vou contar tem caráter extraordinariamente sério, e deve ser encarada como tal. Isso deve ser respeitado, de modo que qualquer gracinha vai ser de um mal gosto medonho. Todo mundo aqui é alguém, e não alguma coisa. Todos os que participarem do tópico merecem ser respeitados pelo simples fato de estarem participando do tópico, não faz diferença se você tem alguma rixa com alguém. Não estou dizendo pra virar amiguinho de ninguém, apenas respeite o fato de que aqui tá todo mundo no mesmo barco. E nesse barco o ato de respeitar, inclusive o que você não gosta ou não concorda, faz bem. Respeitem as regras, porque fui eu que as fiz, e quem está tendo o trabalho de criar o tópico sou eu. Sim, ele deu trabalho. Enfim, respeitem.

Até porque eu não tenho qualquer autoridade no fórum e não vou poder fazer nada caso tu resolva que não quer seguir as regras do tópico. Só vou ficar decepcionado e lamentar ter dado esse nível de confiança a vocês. Acontece. Quem não quiser valorizar a minha confiança, azar o meu.

Agora vamos ao conselho. Não se esqueçam do nível de seriedade presente aqui. Você já sentou perto de uma fogueira ou lareira? Pois bem, entre fazer esse conselho pela internet ou pessoalmente, eu com certeza escolheria fazer pessoalmente, de preferência com um fogo crepitante do meu lado. Porque o fogo é uma coisa mágica e aconchegante. Ele altera as pessoas, as une e as atrai. Se eu tivesse chamado vocês para uma sala ou gramado onde não há nada além da madeira queimando, vocês sem qualquer dúvida se agrupariam em torno dela. E muitos, até eu começar a falar, ficariam simplesmente olhando aquele canto, de onde saem a luz e o calor que estão à volta. As reuniões mais gostosas são sempre feitas em torno do fogo, seja para dançar, para contar histórias, para conhecer pessoas, para cantar música, ou para se divertir pura e simplesmente. A comida dessas reuniões é preparada no mesmo fogo que aquece e ilumina as pessoas ao redor. Em diferentes povos, há muito tempo é em volta do fogo que assuntos importantes são ensinados. Então é assim que vai ser. Já temos o nosso fogo crepitante.

Agora, para entender bem a história que eu vou contar, não basta simplesmente ouvir. É necessário imaginação. Imaginem a história à medida que vão ouvindo, imaginem ela acontecendo ao seu redor. À sua frente, ali naquele fogo. Lembra de quando você era criança, e quando te contavam uma situação cotidiana qualquer que tivesse ocorrido, a cena logo se formava na sua cabeça? É exatamente essa habilidade que você deve recuperar agora.

Vou começar. Quem quiser, pode se levantar agora e deixar o conselho, dá pra começar de onde paramos quando você quiser voltar. Garanto que isso é melhor, mas muito melhor do que sair no meio da história. A barra de rolagem está logo ali pra verificar previamente o tamanho dela.

Quem resolver ficar, aguce os ouvidos, lembre-se do fogo, e comece a botar a imaginação para funcionar.

































































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MensagemAssunto: Re: Fogo de Conselho   12/06/09, 01:41 am

Citação :
Era uma vez uma cidade chamada Felicidade. Felicidade era um lugar lindo, desses em que qualquer um de nós gostaria de morar. Não tinha o rico, nem o pobre. Não tinha a mansão, nem tinha a favela. Os carros não buzinavam. As pessoas não brigavam. Pelo contrário, conversavam animadamente nas ruas, que aliás não tinham lixo nem fediam, e as paredes, quando não estavam lisas, era porque tinham bonitos desenhos. Por onde se passava, seja nas ruas, nas praças ou nos bosques, sempre via-se crianças brincando, casais namorando, alguém jogando conversa fora. Em todas as casas, as janelas não tinham grades, e as portas estavam sempre abertas.

Os habitantes de Felicidade tinham um hábito curioso. Eles trocavam pedaços de algodão sempre que se encontravam. Seja no trabalho, nas horas de lazer, no colégio, não importa. Você sempre dava um pedaço de algodão para quem cruzasse no caminho, e recebia outro da pessoa. Em Felicidade, o algodão representava o carinho que as pessoas sentiam umas pelas outras. Porque o algodão é fofo, macio, gostoso de passar a mão, gostoso de apertar com os dedos. Um objeto simples e singelo, mas ideal para representar o carinho que as pessoas de fato trocavam quando o algodão passava de mão em mão.

Como toda história, a nossa tem o seu protagonista. Um garoto chamado Joãozinho. Era um garoto comum de Felicidade, com uma rotina comum. Ele acordava, trocava algodão com os pais. Ia pra escola, aprendia coisas novas, e depois ia brincar. Sempre trocando pedaços de algodão com quem encontrava: os colegas de rua, os professores, os colegas de sala, os colegas das outras salas. Como muitos de nós, Joãozinho tinha seu fiel escudeiro, seu grande camarada, seu melhor amigo. Um garoto chamado Pedrinho, tão comum quanto Joãozinho. Os dois eram típicos amigos inseparáveis. Se conheciam desde muito pequenos e faziam praticamente tudo juntos: estudar, jogar bola, andar por aí, tudo. Nunca tinham brigado, durante toda a vida, por qualquer motivo que fosse. Todos em Felicidade reconheciam e admiravam aquela amizade.

Uma particularidade de Joãozinho, todos em Felicidade sabiam, era um brilho especial que tinha no olhar, um tanto diferente dos olhares das outras crianças da cidade. Certo dia, Joãozinho, Pedrinho, e outras pessoas da turma estavam jogando futebol no gramado da região. Felicidade tinha um gramado lindo, um tanto afastado das casas e ruas, que era o lugar preferido de muitas pessoas para jogar bola, namorar, conversar, olhar as estrelas à noite... Nesse dia a bola, como é comum acontecer, em certo momento foi chutada para longe, e Joãozinho foi lá buscar. Quando pegou a bola e se levantou, Joãozinho viu uma velhinha, visivelmente nova na cidade. Primeiro porque Joãozinho já havia trocado na vida algodões o suficiente para conhecer todas as pessoas de Felicidade. E segundo porque a senhora estava com aspecto abatido, triste, com roupas sujas... era notável que ela não era dali. Então Joãozinho tirou um pedaço de algodão do bolso, estendeu para a velhinha e disse:

— Olha, minha senhora, eu não a conheço, mas percebo que você não é daqui, e que precisa de muito carinho. Isto é o meu carinho, pega. Troca ele com as outras pessoas na cidade. Tenho certeza de que, em pouco tempo, você terá tão carinho e será tão querida quanto todos nós.

Ao que a velhinha respondeu:

— Eu não quero o seu carinho, Joãozinho.

O menino, claro, se assustou. Nunca ninguém em Felicidade recusava um algodão. Mesmo que fosse para receber um e dar dois, as pessoas sempre aceitavam, porque era sempre bom receber carinho de alguém. Enquanto ele ainda estava digerindo o que acabara de ouvir, a senhora explicou:

— Eu não quero o seu carinho, Joãozinho, porque eu quero que você guarde ele para si. Eu vim lhe dar um conselho. Eu reparei que você tem um brilho no olhar diferente dos outros meninos da cidade. Você quer sair de Felicidade, certo, Joãozinho?

Era verdade, não havia como negar. Joãozinho amava Felicidade com todas as forças, era o lar dele, o cantinho dele. Mas ele queria conhecer o que havia lá fora. As outras cidades, as montanhas, os vales, os rios, outras culturas, músicas, literaturas. Joãozinho queria crescer nesse aspecto, embora tivesse um afeto muito grande por sua terra natal. A velhinha continuou:

— O conselho que eu vim lhe dar, Joãozinho, é o seguinte. Daqui para frente, toda vez que você receber um carinho, não troca ele não. Guarda. Guarda pra você. Carinho é poder. Se você tiver muito, mas muito carinho, em algum tempo será a pessoa mais querida daqui, e poderá esse poder em seu favor, para fazer as viagens que quer. Para realizar seu sonho.

Depois dessas palavras, a velhinha se virou e foi embora. Joãozinho nunca mais a viu. Ele voltou para o seu futebol com a turma, um tanto desconcertado com aquilo. Afinal, era informação demais, ele ainda mal podia acreditar que vira uma pessoa recusar um algodão. E que idéia estranha essa, guardar carinhos. Joãozinho gostava de estendê-los às outras pessoas, tanto quanto gostava de receber. Ele continuou jogando a sua bola normalmente, e o resto do dia não teve maiores novidades. Mas por mais estranha que a idéia parecesse, ela continuou martelando na cabeça do garoto, como um prego que se recusa a furar a madeira. No dia seguinte, ao acordar, decidiu seguir à risca a sugestão da senhora, e começou a guardar algodão o tempo inteiro, para poder deixar Felicidade um dia.

O tempo foi passando, Joãozinho foi crescendo, chegou na adolescência. A cada dia que passava, Joãozinho acumulava mais e mais pedaços de algodão com uma rapidez surpreendente. Em pouco tempo, era em toda a cidade quem mais possuía algodão. Nem pensava mais em trocar. Quando encontrava com alguém e recebia o carinho, ele simplesmente agradecia sorrindo, colocava o carinho no bolso, e esperava chegar em casa para guardá-lo junto aos outros. E a cada dia que passava, Joãozinho ficava mais egoísta e mais fechado, completamente diferente do garoto gentil e extrovertido que havia sido. Para que sair de Felicidade, se ficando ali ele podia sempre ganhar mais e mais algodão? Conforme ia se tornando querido, seu temperamento ficava cada vez pior. Seu comportamento mudou, e depois de um tempo, Joãozinho havia se tornado uma pessoa extremamente insuportável.

Os pais sem dúvida notaram as mudanças na personalidade do filho. Mas não imaginaram o que seria, e acharam que tocar no assunto só iria piorar as coisas. Era uma fase, pensavam. A namorada terminou com ele, brigou com a turma... Enfim, algo normal da adolescência que, como fase, com certeza passaria, era só esperar. Pedrinho, claro, também notou que seu grande parceiro estava diferente. Mas, ao contrário dos pais, não pensou que era uma fase. Preocupado, foi até a casa dele para conversar, e os pais disseram que Joãozinho estava tomando banho. Pedrinho resolveu esperar no quarto, e decidiu procurar ali algo que indicasse o que havia acontecido com seu amigo. Afinal, Joãozinho sempre lhe dera total liberdade dentro daquele quarto. Abriu as gavetas da mesinha de cabeceira, nada. Olhou debaixo da cama, nada. Já tinha procurado em quase todos os lugares quando abriu a parte de cima do guarda-roupas, aquelas portinhas superiores onde se guarda lençóis de cama e malas de viagem. Foi então que bolos e mais bolos gigantes de algodão caíram sobre sua cabeça. Era inacreditável o tamanho e quantidade daqueles amontoados de carinho, Pedrinho ficou absolutamente soterrado. Enquanto ele estava refletindo qual relação aquilo poderia ter com as mudanças em seu amigo, Joãozinho entrou no quarto. Sem hesitar, deu uma bronca violenta em Pedrinho.

— O que você está fazendo aqui?! O que você está fazendo com o meu algodão?! O meu carinho?! O meu poder?! Vai embora! Eu não te quero mais aqui, neste quarto, nesta casa, na minha vida! Eu não quero mais ser seu amigo! Anda logo, vai embora, e deixa o meu carinho em paz!

Mesmo completamente assustado, Pedrinho respeitou o desejo do amigo, e saiu. Como bom amigo que era, ele decidiu procurar Joãozinho na escola no dia seguinte para conversarem e explicarem as coisas. Tinha certeza, ora bolas, de que Joãozinho faria exatamente o mesmo por ele. Joãozinho, que então estava mais calmo e seguro de que todo o seu algodão estava a salvo, contou para Pedrinho:

— Olha, eu vou te contar, mas é só porque você é o meu melhor amigo. Teve um dia em que eu decidi não trocar mais pedaços de algodão, e sim só receber e guardar. Graças a isso, você pode reparar, eu sou hoje a pessoa mais querida e poderosa de toda a cidade. No seu lugar, eu fazia o mesmo. Eu também quero que você tenha carinho, que você tenha poder.

Apesar de Joãozinho não ter reparado, alguém entreouviu a conversa. A notícia se espalhou. Que genial, guardar pedaços de algodão. Era por isso que Joãozinho era tão querido, porque ninguém pensara nisso antes? E então, conforme o tempo passava, a cidade ficava diferente do que Joãozinho conhecera na infância. Ele, claro, não notou, estava preocupado demais em acumular cada vez mais carinho. Certo dia, Joãozinho decidiu ir embora. Resolveu que não estava mais a fim de ficar em Felicidade, que era chegada a hora de realizar seu sonho de conhecer o mundo. E foi. Não avisou aos pais, sequer se despediu de seu melhor amigo. Simplesmente pegou suas coisas e saiu.

Lá fora, ele se tornou de imediato uma pessoa extremamente respeitada. Não mais Joãozinho, Doutor João só poderia ser alguém muito poderoso, se trazia provas de que era tão querido assim no lugar de onde vinha. Comprou uma casa enorme e viveu uma vida farta. A única coisa que o incomodava a essa altura era a hora de dormir. Desde que abandonara Felicidade, João tinha pesadelos. Ele não sabia ao menos o motivo de serem pesadelos, pois tudo o que conseguia ver era uma névoa muito densa, e tudo o que conseguia ouvir eram sons abafados e indistintos. Mesmo assim, todas as manhãs João acordava muito assustado, e com o coração batendo muito forte. A cada noite que passava, o pesadelo se tornava menos nebuloso. Algum som se tornava um pouco mais nítido, alguma paisagem se tornava um pouco mais visível. Até a noite em que conseguiu entender o sonho, e compreender o motivo se ele ser tão assustador. João sonhava com sua cidade natal, Felicidade. Porém completamente diferente do que ele lembrava. Quando acordou daquela vez, João não pensou duas vezes, e foi voando para casa.

Ao chegar na cidade, se deparou exatamente com o que se deparava todas as noites ao dormir. Felicidade não parecia nada com o recanto de infância de Joãozinho. A inimizade, a divisão entre as pessoas era surreal. Os poucos que davam bom-dia agora o faziam por mera regra de etiqueta, ou por desejo de ascensão. João olhou à volta. Pequenos furtos aconteciam o tempo inteiro diante de seus olhos, sem a vítima nunca se dar conta. Mendigos em um canto se esbofeteavam por um pedaço de pão mofado. No semáforo, outros tantos pediam esmola como se daquilo dependesse a vida. As calçadas estavam imundas, ninguém mais ligava se a rua ficava suja. Pouquíssimas pessoas andavam sorridentes em seus carros caros em direção a suas mansões, e esse sorriso era rapidamente quebrado por qualquer coisa que fosse motivo para buzinar. Buzinas eram ouvidas o tempo inteiro em cada canto. Rabiscos ininteligíveis cobriam todas as paredes, que fediam a mijo. Todas as portas estavam trancadas. Todas as janelas estavam cobertas de grades de uma ponta à outra da cidade. Simplesmente não havia, por mais que se procurasse, um único habitante dando um pedaço de algodão para outro.

Foi então que João compreendeu tudo. Desesperado com aquela cena, correu para a própria casa, e precisou usar a chave pela primeira vez. Encontrou a mãe um tanto mal vestida e abatida. Estava sozinha, o pai estava em algum lugar lá fora dando duro pra manter os dois alimentados até de noite. Completamente aos prantos, Joãozinho disse:

— Desculpa, mãe. Desculpa. Eu sei que a culpa é minha. Eu não queria, não era para nada disso acontecer.

E é claro que ela desculpou. Como poderia não desculpar? Estava orgulhosa do filho, que reconhecera o próprio erro. Enquanto isso, Pedrinho vinha andando pela rua e estranhou a porta que Joãozinho deixara escancarada. O que uma porta estava fazendo assim aberta ao léu em Felicidade, os donos não sabiam que era perigoso? Foi então que Pedrinho reconheceu a casa e entendeu. E entrou. Ao olhar para trás e ver seu amigo entrando, Joãozinho imediatamente correu para lhe dar um abraço. Não queria nem saber, precisava dar um abraço em Pedrinho. Chorou como nunca na vida. Abraçou Pedrinho como nunca na vida. Nada naquele momento poderia lhe dar mais satisfação do que ver o velho companheiro. Não soube por quanto tempo ficaram abraçados, nem fez questão de saber. Joãozinho apenas queria poder abraçar seu amigo para chorar, demorasse o quanto demorasse. E abraçou, e chorou, e demorou quanto tempo foi necessário. Pedrinho não moveu um músculo para apressar aquele abraço.

Quando finalmente se soltaram, Joãozinho deu um discurso muito parecido com o que fez para a mãe:

— Porra, cara, desculpa. Desculpa mesmo, sério. Eu não queria. Não queria de verdade. Foi sem querer. Não era para nada disso ter acontecido. Me perdoa.

E é claro que Pedrinho perdoôu. Amava o amigo e não escondia isso de ninguém. Nunca haviam brigado, nunca, e ele não deixaria aquela ser a primeira vez.

Foi então que Pedrinho teve uma idéia. Contou a Joãozinho, que gostou e concordou na mesma hora. Os dois botaram imediatamente em prática. Colocaram todo o algodão que Joãozinho acumulou a vida inteira no carro, lotaram a mala e o banco de trás. Se algodão não fosse tão fácil de amassar, não caberia. E saíram pela cidade. Foram em todos os lugares distribuir aquele algodão, foram atrás de todas as pessoas, uma a uma. Não esqueceram de nenhuma rua, de nenhuma casa. Passaram em todos os semáforos e esquinas e deram um pedaço de algodão a todos os mendigos. Foram no bairro nobre da cidade e entraram em todas as mansões para dar algodão aos donos. Passaram o dia inteiro se dedicando a que não houvesse nenhuma pessoa com quem não encontrassem. O algodão estava quase no fim, os endereços que faltavam eram poucos, quando as primeiras pessoas com quem encontraram naquele dia foram até eles. E essas pessoas lhe deram um pedaço de algodão, e receberam outro. E quando a última pessoa foi encontrada, não havia mais como acabar o algodão, porque sempre alguém por quem passavam lhes dava um pedaço.

E a vida seguiu, Joãozinho e Pedrinho nunca conseguiram acabar aquele algodão. Com o tempo, todas as ruas foram sendo limpas. As grades nas janelas e trancas nas portas perderam a necessidade, e deixaram de existir. As crianças voltaram a brincar nas praças, os casais voltaram a namorar e olhar estrelas no gramado distante. As buzinas não eram mais ouvidas, foram completamente substituídas pelas mesmas conversas animadas de outrora. A distância social entre as pessoas foi se reduzindo a zero, até não haver mais qualquer rico ou qualquer pobre. Os desenhos bonitos voltaram a preencher os muros. Felicidade foi lentamente voltando a ser como era, e as pessoas voltaram a trocar carinhos.


Última edição por CDX em 12/06/09, 01:43 am, editado 1 vez(es)
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MensagemAssunto: Re: Fogo de Conselho   12/06/09, 01:41 am

Eu vou ser absolutamente sincero aqui. Não sei se Felicidade existe. Eu, pelo menos, nunca passei por ela. Já passei sim por lugares assustadoramente parecidos, e o melhor exemplo é o próprio NR onde eu ouvi a história, há quase 5 anos atrás, quando recebi, na frente do fogo crepitante, o meu primeiro pedaço de algodão. Pode parecer utopia, mas eu acredito sim que um dia seja possível chegarmos a esse nível. Mas não é nesse mérito que eu quero entrar agora.

Espero que todos aqui saibam a diferença abismal que existe entre um amigo e um colega. Que todos saibam o quanto a palavra "amigo" é doce e significativa, e o quanto é bom você saber que pode dizer do fundo da alma pra alguém "Eu tenho um monte de colegas, mas você, você é meu amigo de verdade". Eu conheço muito bem essa diferença, felizmente. Pra quem não conhece, não vou explicar nada aqui, não acredito que o significado da palavra "amizade" possa ser expresso em palavras. Mas tenho a esperança de poder, daqui pra frente, chamar todas as pessoas que participarem deste conselho de "meu amigo" ou "minha amiga". Vai depender do quanto vocês estejam dispostos a tanto. Quem me conhece um pouco melhor, sabe do valor que eu dou a qualquer amizade verdadeira.

[CDX estende um pedaço de algodão]

Estou dando, nesse momento, o meu carinho para vocês. Ele agora não é mais meu, é seu. O que vocês fazem com ele são vocês e somente vocês que sabem. Se queriam uma oportunidade pra dizer sem medo "eu te amo, você é demais" com sinceridade pra alguém, seja o pai, a namorada, o grande amigo, a hora é essa. Se sente que quer se redimir com alguém por uma briga ou picuinhas bobas que vêm acontecendo, a hora é essa. Enfim... Vocês têm o carinho na mão, e a verdade é que eu não perguntei muito se vocês queriam. Mas o que vocês fazem com ele agora, é sua escolha. Podem simplesmente jogar fora se quiserem. De verdade, eu não coloco qualquer restrição quanto a isso. O telefone está ali. O sistema de MPs está ali. O Orkut e a caixa de e-mail estão ali. A porta da rua pra ir a qualquer lugar está ali. O tópico está aqui. Nesta página da internet, acabou de surgir uma pitada de carinho. Esse poder é de vocês e de mais ninguém nesse momento.

Antes de me despedir, queria deixar a letra do que considero a música mais foda do universo. Quem quiser baixar, é só clicar no link que tem no título. Ela tem tudo a ver com a história que acabei de contar e com tudo o que acabei de dizer, vejam:

--------------------------------------------

Lugar na Mesa

Lugar na mesa deve haver para um amigo mais
Só um pouquinho que apertar já dá para sentar
Para isso serve a amizade, chegando a ocasião
Falar com toda a liberdade e com o coração
E com o amor nos pagará e alegrará a reunião

Lugar na mesa deve haver para um amigo mais
Só um pouquinho que apertar já dá para sentar
Para isso serve a amizade, chegando a ocasião
Falar com toda a liberdade e com o coração
E com o amor nos pagará e alegrará a reunião

A porta sempre aberta, a luz brilhando é vida
A porta sempre aberta, a luz brilhando é vida
O fogo sempre aceso, a mão sempre estendida
O fogo sempre aceso, a mão sempre estendida
A porta sempre aberta, a luz brilhando é vida

E se chegar alguém não pergunteis quem é
Não, não, não! Não, não, não, não, não!
E quando chega o hóspede, não pegunteis por que
Não, não, não! Não, não, não, não, não!
Não! Não, não!
E corra para ele de mãos bem estendidas
E corra para ele alegre a sorrir
Gritando viva! E viva!
E viva, e viva a amizade de verdade
E viva! E viva! E viva, viva, viva!

Lugar na mesa deve haver para um amigo mais
Só um pouquinho que apertar, só um pouquinho que apertar
Já dá para sentar
Para isso serve a amizade, chegando a ocasião
Falar com toda a liberdade e com o coração
E com o amor nos pagará e nos dará calor
Lugar na mesa deve haver para ele, para ele, para ele, para ele
Para ele!

---------------------------------------------------------

E é isso. Amo todos vocês. De verdade mesmo.

[CDX senta diante do fogo e começa a olhar pra ele interminavelmente]
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MensagemAssunto: Re: Fogo de Conselho   12/06/09, 11:07 am

nemli

eu Tenho que ir no NR!
o pior é que agora eu to curioso!

Matusalém Maldito!
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MensagemAssunto: Re: Fogo de Conselho   06/12/09, 08:13 am

cara, CDX. eu li. e pqp. fiquei muito emocionado, nunca pensei tanto em toda minha vida. posso não ter ido ao acampamento, mas pretendo demonstrar carinho a todos, em toda a minha vida. sairam lagrimas daqui cara. sério

cara, que lindo *-* meu pedaço de algodão aqui está disponível também galera ;D
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MensagemAssunto: Re: Fogo de Conselho   08/12/09, 08:42 am

já dizia o velho David Bowie há 40 anos atrás
"the sun machine is coming down and we gonna have a party..."

cdx e seu texto psicodélico. Juro que toda vez que eu leio isso, eu ouço flautinhas de bambu e violão ...kkk espírito 100% hippie
[no sentido verdadeiro da palavra]
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Capiroto
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MensagemAssunto: Re: Fogo de Conselho   08/12/09, 10:01 am

Caralho, nunca que eu vou ler algo tão grande assim Laughing
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pendragonm
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MensagemAssunto: Re: Fogo de Conselho   08/12/09, 10:45 am

Capiroto escreveu:
Caralho, nunca que eu vou ler algo tão grande assim Laughing
..e olha que essa foi a versão resumida... yay
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MensagemAssunto: Re: Fogo de Conselho   Hoje à(s) 09:31 am

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